Movimento de Câmera
- 24 de mar. de 2017
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Atualizado: 24 de jun. de 2024

De um modo geral, tudo o que falamos a respeito dos planos e enquadramentos até o momento se referem a situações em que a câmera se encontra estática dentro da cena, onde ela constrói a narrativa a partir da escolha dos planos (que serão unidos no processo de montagem). Mas, nem sempre o conteúdo da cena consegue ser apresentado sem que a câmera se movimente e reorganize nosso campo de visão do objeto ou personagem.
O movimento de câmera também é um elemento fundamental da linguagem já que permite que a câmera acompanhe a ação dos personagens pensando não apenas no valor descritivo que esse movimento pode ter, mas também no valor dramático que pode ser gerado. Um movimento pode assumir um caráter simbólico, provocar ritmo e diminuir a necessidade de cortes na montagem.
Temos quatro tipos de movimentos de câmera (sem considerar suas pequenas variações de sentido físico): A panorâmica (PAN E TILT) o travelling, a trajetória e a câmera na mão.
Panorâmica
A panorâmica é um bom exemplo quando pensamos em traduzir o olhar de um espectador por meio da câmera, pois ela representa exatamente o movimento circular feito pela cabeça de uma pessoa em um ângulo de até 180 graus. O movimento da câmera de maneira circular em torno de um eixo fixo na horizontal ou diagona recebe o nome de PAN e na vertical é chamado de TILT.
A panorâmica pode ajudar a descrever um espaço, indicar um ponto de vista (subjetividade) e também estabelecer a relação espacial entre dois objetos, tudo isso sempre realizando o movimento do olhar do personagem.
Panorâmica Invertida
Além da panorâmica que imita o movimento da cabeça, também temos o movimento chamado panorâmica invertida, em que a intenção é demonstrar e descrever um objeto que está estático e assim acrescentar movimento a ele. Um exemplo do uso da panorâmica invertida pode ser visto no filme “Cidade de Deus” (2002) do diretor Fernando Meirelles. Logo no começo do filme vemos o personagem Buscapé nos contando como tudo começou, e para isso, ele nos leva do presente para o passado com uma panorâmica invertida.
A câmera faz uma volta de 360º graus em torno do personagem parado no centro enquanto vemos ele retornando a infância em um jogo de futebol na mesma posição.
Travelling
O travelling é o deslocamento que a câmera faz, sempre em linhas retas, para se aproximar, se distanciar ou acompanhar um objeto ou personagem enquanto o mantêm enquadrado no cenário. Geralmente, esse movimento de câmera, é possibilidado pelo uso de equipamentos como trilhos ou rodinhas presas na câmera para que ela consiga fazer a ação de forma suave e estável.
Uma das funções principais do movimento é acompanhar uma ação ou um personagem, mas além disso, o travelling pode ter outros efeitos mais dramáticos dentro de uma narrativa. Como por exemplo, quando é necessário evidenciar o susto ou apreensão no rosto do personagem, a câmera faz um travelling para frente destacando essa tensão mental crescente, o que resulta num primeiro plano do personagem. Ou quando a história termina e a câmera “se afasta” com um travelling para trás (e geralmente para o alto) para demonstrar ao público que a história acabou e podemos ir embora.
Muitas pessoas fazem uma leve confusão entre o movimento de câmera travelling e o deslocamento de lentes chamado de zoom. Então, não se engane! No caso do zoom, existe um reposicionamento das lentes, com isso, a profundidade de campo é alterada. Enquanto que no travelling, o movimento parece ao espectador, mais natural e é menos perceptível.
Trajetória
A trajetória é um movimento que combina a liberdade de movimentação do travelling à precisão da descrição de espaço da panorâmica. Esse movimento não é muito natural e geralmente usa de uma grua para conseguir percorrer o local.
Câmera na Mão
O movimento conhecido como câmera na mão, tem esse nome pois não é um movimento natural do olhar humano. Seu caráter é subjetivo e muitas vezes é usado para demonstrar um aspecto psicológico do personagem e da ação. No curta “Beat the Devil” (2002) é possível perceber o uso dessa câmera instável praticamente no curta inteiro. Esse movimento ajuda a demonstrar a urgência das ações, a rapidez com que as coisas se movem e a instabilidade, loucura e falta de foco de todos os personagens que participam da narrativa.
Além das funções já apresentadas, todos os movimentos de câmera têm seu valor descritivo e dramático quando empregados junto ao enquadramento, pois permitem o reenquadramento do objeto ou personagem para acompanhar o assunto apresentado. O valor descritivo ajuda o espectador a conhecer o local da ação e as relações espaciais recriadas pelo audiovisual, enquanto o valor dramático ajuda a substituir outros efeitos dramáticos de linguagem provocados pelo enquadramento.
Apesar de todas essas noções de câmera, tamanho de plano, ângulos e movimentos, não podemos pensar que a imagem pode ser considerada apenas em si mesma, ela também situa a continuidade dos fatos e um fluxo narrativo que será reordenado e finalizado na montagem. Ou seja, as gravações e filmagens são apenas metade do caminho.





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