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O que são Elipses?

  • 16 de fev. de 2017
  • 7 min de leitura

Atualizado: 24 de jun. de 2024




A elipse é um termo derivado da literatura que significa supressão, omissão, deleção. É um processo de escolha de fragmentos da realidade a fim de suprimir os tempos considerados mortos ou fracos de uma narrativa. Esse processo pressupõe um deslocamento de tempo dentro das ações por meio da escolha dos elementos significativos dentro do plano e a ordenação numa obra.


Durante a produção de uma peça audiovisual, o diretor indica quais ações serão registradas pela câmera. Nesse momento, ele faz a seleção do que será mostrado e também indica o que não será mostrado, mas que tem importância para a história.


Pegue como exemplo uma cena de um filme na qual o personagem começa seu dia: normalmente o vemos acordando, depois no banheiro escovando os dentes e, em seguida, tomando café na cozinha e, por fim, corta para o personagem no ponto de ônibus esperando o transporte que o levará até o trabalho.


Apenas com esses fragmentos de ações não ficou claro que o personagem, para escovar os dentes, precisou se levantar da cama e caminhar até o banheiro? E que para que possamos vê-lo tomando café ficou implícito na cena que depois de sair do banheiro ele caminhou até a cozinha, colocou água para esquentar, passou o café e só depois começou a tomá-lo? E que para chegar ao ponto de ônibus ele precisou terminar o café, colocar uma roupa de trabalho, sair de casa e caminhar até o ponto?


Essas informações que estão “ocultas” é o ato de promover as elipses. Ou seja, a partir das indicações das ações, os espectadores conseguem entender o que aconteceu sem que seja necessário mostrar todos os pontos e detalhes. As ações não deixaram de existir, apenas não são importantes para a narrativa.


As elipses acontecem por meio da seleção dos planos visuais para criar ritmo e suspense à história. Para tanto, suas indicações (ou intenções) devem ficar claras na narrativa de uma forma que a imaginação e atenção do espectador coloquem de volta na trama essas partes que a deixariam chata ou sem muito apelo para o envolvimento do público. Existem dois tipos de elipses desenvolvidas numa produção audiovisual: a elipse de conteúdo e a elipse de estrutura.


Elipse de Conteúdo

Na elipse de conteúdo, geralmente não mostramos parte da cena ou ação, ou em alguns casos suprimimos a cena como um todo, pois essa cena não é relevante para a narrativa. Um exemplo desse tipo de elipse é o filme “2001 – Uma odisseia no espaço” (1968), do diretor americano Stanley Kubrick, até hoje considerado uma das maiores elipses de conteúdo da história do audiovisual.


De uma forma bem resumida (se é possível fazer um resumo desse filme) a história apresentada é a do Dr. David Bowman e outros astronautas que partem numa missão espacial, na qual acontece uma série de eventos que leva os personagens humanos a entrar em conflito com a inteligência artificial que controla a nave espacial. A intenção desse filme é discutir a evolução humana, tecnológica, a inteligência artificial e a vida fora do planeta Terra.


Logo no começo da narrativa, o diretor nos mostra o começo da evolução humana segundo as teorias evolucionistas de Charles Darwin: vemos a famosa cena dos macacos descobrindo o fogo e aprendendo a manusear o osso como uma ferramenta técnica e também como uma arma. Seguindo essa sequência, o osso é lançado ao ar e se transforma em uma nave espacial orbitando em volta da Terra.

Basicamente, o diretor excluiu do filme todo o processo de evolução dos seres humanos que está contido entre essas duas ações. Não foi necessário mostrar as revoluções industriais ou as guerras mundiais para entendermos que essa situação se passa no futuro, e um futuro baseado na evolução que estamos vivendo agora, inclusive. A elipse aqui deixou claro os fatos que ocorreram no passado e como esses fatos foram importantes para entendermos o presente fílmico.



Outra motivação que existe para uma elipse de conteúdo é quando precisamos fazer uma censura social, ou seja, ajustar o conteúdo apresentado indicando o ato, mas sem precisar mostrá-lo. Vemos muito desse tipo de construção em filmes que contêm cenas de sexo, morte ou tortura. Esse tipo de elipse pode ser criado pela indicação inicial do que vai acontecer em um plano e a representação do final da ação em outro plano em seguida. Imagine a seguinte cena: dois personagens entram no quarto aos beijos e tirando suas roupas, quando a câmera acompanha e se fixa em uma das peças de roupa que é jogada no chão. Quando o plano se abre novamente, vemos os mesmos dois personagens deitados na cama: enquanto um dorme, o outro fuma um cigarro, olhando para o teto de forma reflexiva. Toda a cena de sexo foi eliminada, mas o espectador sabe que ela existiu.


Outra forma de usarmos a elipse de conteúdo é quando temos a substituição de um elemento visual por outro e, assim, além de promover o deslocamento de tempo, também trabalhamos com a aproximação simbólica da imagem. Esse recurso pode ser usado quando o autor pretende “suavizar” uma cena muito brutal ou construir a cena de uma forma poética.


Imagine o seguinte exemplo: Uma personagem se encontra no parapeito de um prédio de 40 andares, ela está em pé depois da área de contenção observando a calçada e as pessoas andando calmamente lá embaixo. A câmera mostra a personagem mais umas duas vezes e intercala essa imagem com seu ponto de vista observando o chão e a distância. Na quarta vez que a câmera mostra nossa personagem, a vemos pulando em direção à calçada. Nesse momento acontece um corte de câmera e, em vez de vermos a pessoa no chão cheio de sangue por conta da queda, na verdade vemos um buquê de flores sendo jogado em cima de um túmulo no cemitério com o nome da pessoa que se jogou. Percebam que, aqui, a ação que o personagem fez e que resultou em sua morte foi rapidamente substituído pelo momento pós-sepultamento para indicar ao espectador tudo o que aconteceu entre esses dois pontos, mas de uma forma mais rítmica e apenas apontando os pontos mais relevantes para o andamento da narrativa.

Elipse de Estrutura

A elipse de estrutura acontece quando o espectador é levado a ignorar um elemento da cena, essa eliminação serve de apoio à construção do enredo, mesmo que por razões dramáticas. Esses elementos podem vir a ganhar um significado maior no decorrer do produto audiovisual e a sua ocultação inicial pode criar suspense e ganchos narrativos para o encadeamento das cenas. Além disso, é esse tipo de elipse que possibilita demonstrar o ponto de vista de um personagem: não mostramos na tela a imagem do protagonista para posicionar a câmera como se fossem os seus olhos.


Um exemplo desse tipo de elipse é a cena de tortura que acontece no filme “Roma, cidade aberta” (1945) do diretor italiano Roberto Rossellini. O filme conta a história de pessoas que vivem na cidade de Roma no período da ocupação nazista e que, além de tentar sobreviver, também ajudam a resistência contra o regime. Mais adiante, na narrativa, quando um dos líderes da resistência é capturado, o padre (um dos personagens principais) é chamado para ser interrogado e também convencer o preso a entregar seus companheiros, uma das formas que os vilões usaram para tentar persuadir o padre foi fazendo com que ele assistisse à tortura do preso.


A cena começa mostrando para o público indícios de como será a tortura (vemos um maçarico aceso na mesa junto a alicates e outros objetos) e o personagem preso à cadeira, a partir da apresentação dessas informações de forma visual, passamos a acompanhar todo o resto da cena apenas com o som do personagem sofrendo enquanto vemos a cara de desespero do padre durante a ação. A ação acontece por inteiro, mas não a vemos, apenas ouvimos. Só no final, quando o chefe retorna à sala de interrogatório para ver como estão as coisas é que vemos o estado do personagem que foi torturado. Pelo fato de não vermos a situação, mas ouvirmos todos os sons que o personagem está emitindo enquanto sofre, deixa a cena com um impacto dramático maior, pois o imaginário do público constrói a cena de tortura e essa construção se aproveita da referência pessoal de cada um.


Um outro exemplo do uso da elipse de estrutura é quando vemos a cena, mas o elemento que é ignorado é o som. No filme “O Poderoso Chefão: parte 3” (1990) do diretor Francis Ford Coppola, temos uma cena muito dramática que tem seu impacto potencializado pelo fato de não ouvirmos o personagem gritando.


A cena da tentativa de assassinato do protagonista começa com as pessoas gritando, tiros e muito choro, mas, na hora que os personagens percebem que foi atingido e o quão grave é o ferimento, vemos o personagem principal Michael Corleone num momento de desespero que tem um impacto maior pois não o ouvimos gritar. Nesse momento, a música extremamente dramática e melódica toma conta da cena e vemos a ação do personagem gritando, mas o som do grito aqui não vem da tela, indiretamente é a imaginação do público que coloca o grito na cena a partir do momento que imaginamos não apenas como ele é, mas também o quão desesperador é esse grito. A cena fica mais tocante e emotiva por causa do uso desse recurso de linguagem.



Essa ocultação pode ser produzida por um outro objeto, que esconde a outra peça em todo ou em parte; pela substituição da ação pela imagem do rosto que a observa; pela utilização de sombras e reflexos dos personagens no lugar deles próprios; uma evocação sonora (como um grito) que substitui a imagem.


Na maior parte dos casos, a escolha do tamanho do quadro ou o movimento de câmera são os elementos técnicos que provocam a elipse. Em outros, o processo de montagem se encarrega disso. No próximo capítulo, você conhecerá os conceitos básicos da Linguagem Audiovisual.


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