Tipos de Coerência Textual
- 17 de mar. de 2021
- 6 min de leitura
Atualizado: 26 de nov. de 2023
Coerência textual é aquilo que faz com que um texto nos pareça “lógico”, consistente, aceitável e com sentido. Relaciona-se com conhecimentos e informações.

Ou seja, um texto só poderá ser considerado coerente se fizer sentido para o leitor, onde o mesmo estabelece sentidos ao texto com base em seu conhecimento de mundo e nas pistas deixadas pelo autor.
O conjunto dessas pistas é aquilo que vimos no capítulo anterior: a coesão. Dessa forma, podemos perceber que coesão e coerência são dois mecanismos que normalmente caminham lado a lado, pois reconstruir a coerência de um texto é responsabilidade do leitor, mas para isso precisa de ajuda do autor por meio dos mecanismos de coesão.
Coerência Semântica
Diz respeito à relação entre significados dos elementos das frases em sequência, em um texto, ou entre os elementos do texto como um todo. Para que a coerência semântica esteja presente, é preciso que ele não seja contraditório. Para detectar uma incoerência, devemos fazer uma leitura cuidadosa. Exemplo: A televisão transmite lazer. Na verdade, a televisão não transmite, mas proporciona lazer.
Coerência Sintática
Oração escreve uma coerência assim sintática, a mesmo ninguém não que conheça
Não deu para entender? Pois é, mesmo que não conheça a coerência sintática, ninguém escreve uma oração assim. A Sintaxe é a parte da gramática que estuda a disposição das palavras na frase, bem como a relação lógica das frases entre si. Para isso, é preciso construir frases em que os elementos estejam dispostos na ordem correta. Está relacionada com a estrutura linguística, coesão, além da ordem dos elementos na oração, como também com a seleção das palavras etc.
Quando empregada, eliminamos estruturas ambíguas, bem como o uso inadequado dos conectivos.
Coerência Estilística
O estilo diz respeito à variedade linguística utilizada em um texto. Se você escolher a variedade padrão, é coerente que você a utilize em todo o texto. Não há sentido em começar um texto com uma linguagem formal e mudar para uma coloquial, concorda? A incoerência estilística não provoca prejuízos para a interpretabilidade de um texto, contudo, a mistura de registros deve ser evitada, principalmente nos textos não literários. Essa noção é necessária para explicar fenômenos de quebras estilísticas.
Coerência Programática
Você sabe o que é pragmática? A Coerência Pragmática trata-se da parte da Linguística que estuda o uso da linguagem, tendo em vista a relação entre os interlocutores e a influência do contexto comunicacional. Todos os textos, sejam eles orais ou escritos, devem obedecer à coerência pragmática. Quando você faz uma pergunta, por exemplo, a sequência de fala esperada é uma resposta. Quando você faz um pedido, é pragmaticamente impossível que simultaneamente você dê uma ordem. Quando essas expectativas são quebradas, temos um claro exemplo de incoerência pragmática.
É muito comum que se elaborem piadas a partir de incoerências pragmáticas: No balcão da companhia aérea, o viajante perguntou à atendente:
A senhorita pode me dizer quanto tempo dura o vôo de São Paulo à Lisboa?
Um momentinho.
Muito obrigado.
Para o viajante, a resposta obtida não pareceu nem um pouco incoerente. No entanto, “um momentinho” não é a resposta, é simplesmente um pedido de tempo para depois dar atenção ao viajante. Nós é que percebemos a incoerência da sequência e tomamos o conjunto como uma piada.
Portanto, um texto coerente, além de bem escrito, deve apresentar coerência:
Interna
Apresentar harmonia entre as ideias contidas no texto.
O tribunal, após breve deliberação, foi condenado a um mês de prisão.
Podemos perceber, no exemplo acima, que há uma incoerência interna, pois o tribunal não pode ter sido condenado a um mês de prisão, mas sim o réu.
Externa
Estar articulado com o contexto exterior, com o receptor.
“Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde Cristo nasceu...” (Claudiomiro, jogador de futebol, ao chegar em Belém do Pará)
Já no exemplo acima, precisamos de um conhecimento externo ao texto para perceber a incoerência: saber que Cristo nasceu na região da Palestina, na Cisjordânia, a 10 km de Jerusalém, e não em Belém do Pará, aqui no Brasil.
Pode haver Coerência sem Coesão?
No início deste capítulo vimos que coesão e coerência normalmente caminham lado a lado, como se fossem condições inseparáveis. Mas não é sempre que isso acontece. Podemos ter um texto coerente sem que apresente elementos de coesão.
Para que seja compreendido, o texto deve ser inteligível, ou seja, ser coerente, mas não precisa, necessariamente, ser coeso.
Pode haver Coesão sem Coerência?
O melhor exemplo que tenho desse caso são algumas piadas que se constroem a partir de interpretações ambíguas. Normalmente, o desfecho dessas piadas aponta para uma situação incoerente, portanto engraçada.
Perceba que os enunciados das piadas apresentam as ideias bem “costuradas” por meio de mecanismos de coesão. Ao contá-las, as premissas são apresentadas de modo a encaminhar para determinada conclusão, mas somos surpreendidos ao final, quando nos apresentam desfechos surpreendentes e incoerentes.
Principais problemas relacionados à Coesão e à Coerência?
Ao analisar o enunciado “João mandou lavar o terno; amanhã ele tem uma entrevista”, comprovamos que a ausência de mecanismos coesivos não necessariamente leva à falta de coerência. Há situações, como essa, em que a relação entre as ideias está tão clara que o emprego de conectivos torna-se dispensável. Em geral, isso ocorre em duas situações: a segunda ideia explica a primeira – o fato de que João fará uma entrevista explica o porquê de ter mandado lavar o terno; a segunda ideia é uma consequência da primeira – é o que ocorre neste outro exemplo: “O combustível terá novo aumento amanhã. Há enormes filas nos postos” (as filas são consequência do aumento do combustível).
Falta de Mecanismos Coesivos
Há situações em que a relação entre as ideias é de outra natureza, nesses casos, precisamos explicitá-las. Veja um exemplo:
Proibir a venda de games considerados violentos fere a liberdade de escolha do consumidor. Não há pesquisas conclusivas que comprovem a influência negativa desses jogos sobre o comportamento das pessoas.
Ora, uma vez que ideias justapostas normalmente mantêm relação de explicação ou de causaconsequência, o leitor tende a estabelecer esse tipo de conexão quando se depara com um par delas. Nesse enunciado, porém, nenhuma das hipóteses se aplica: o fato de não haver pesquisas conclusivas comprovando a influência negativa dos games, não é uma explicação para o fato de que proibir sua venda fere a liberdade de escolha do consumidor; tampouco é uma consequência desse fato. Existe, sim, uma relação entre as ideias, mas ela é de outra natureza – trata-se de uma relação de adição, acréscimo: proibir a venda de games considerados violentos fere a liberdade de escolha do consumidor. Além do mais, não há pesquisas conclusivas que comprovem a influência negativa desses jogos sobre o comportamento das pessoas. Sem um marcador lógico, a clareza do enunciado ficaria prejudicada.
Excesso de Mecanismos Coesivos
Paradoxalmente, um segundo problema coesivo observado em textos de redatores iniciantes está relacionado não à falta, e sim ao excesso de marcadores. No afã de estabelecer ligações explícitas entre as ideias, esses autores usam e abusam dos conectivos; o resultado é um texto monótono, primário, com “cara de redação escolar”. Se os conectivos são colocados sempre na mesma posição dentro das orações, o efeito torna-se ainda pior. Veja um exemplo:
A bicicleta e o carro compartilham as mesmas vias.
Logo, um precisa respeitar o outro. Sendo assim, os motoristas devem manter a distância mínima de 1,5 metro do ciclista. Do mesmo modo, os ciclistas devem seguir as leis de trânsito. Por conseguinte, são obrigados a andar na mão correta e respeitar a faixa de pedestres. Finalmente, os ciclistas devem sinalizar com as mãos antes de trocar de faixa.
Emprego inadequado dos Mecanismos Coesivos
O terceiro problema mais comum relacionado à coesão é o emprego inadequado dos mecanismos coesivos – o que leva inevitavelmente à incoerência, já que o leitor é induzido a estabelecer uma falsa relação entre as ideias.
Veja alguns exemplos, com as respectivas correções:
Queria tanto falar com Débora, até mesmo porque não sei onde encontrá-la. | Incoerente | |
Não saber onde encontrar Débora só aumenta meu desejo de falar com ela. | Coerente | |
É muito comum os jovens falarem sobre a conquista da liberdade, sendo que muitos deles não sabem o verdadeiro sentido dessa palavra. | Incoerente | |
É muito comum os jovens falarem sobre a conquista da liberdade, porém, muitos deles não sabem o verdadeiro sentido dessa palavra. | Coerente | |
Embora seja eficiente e econômica, a energia nuclear pode provocar terríveis acidentes, com consequências gravíssimas para toda a população do entorno. | Coerente | |
A energia nuclear não apenas é eficiente e econômica: pode provocar terríveis acidentes, com consequências gravíssimas para toda a população do entorno. | Incoerente | |
Uso de Mecanismos Coesivos para disfarçar a Ausência de Coerência
Por fim, o quarto – e talvez mais comum – dos principais problemas relacionados à coesão e à coerência diz respeito àquelas situações em que os mecanismos coesivos são usados apenas para disfarçar a falta de coerência do texto.
Em outras palavras: o autor trabalha somente a “superfície” dos enunciados, organizando-os e relacionando-os de um modo aparentemente lógico; contudo, quando o leitor vai além da superfície, percebe que as ideias não formam um todo coerente. Vejamos um exemplo:
Com a substituição do contato pessoal pelo virtual, a nova geração está se tornando cada vez mais agressiva e intolerante. Para muitos jovens, a possibilidade de opinar anonimamente na Internet é um convite à ofensa gratuita. Há quem entre em páginas de artistas que não lhe agradam apenas para escrever comentários desrespeitosos, por exemplo. Mas a verdade é que sempre existiram adolescentes de mal com o mundo, prontos para descarregar sua metralhadora giratória contra tudo e contra todos. As “más-criações” e a rebeldia (ainda que sem causa) são uma maneira de o jovem afirmar sua identidade perante o mundo adulto. Em suma: ao contrário do que muitos dizem, a juventude de hoje não é pior que a de outras épocas.


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